Artigos

FUNDAÇÃO EDUCACIONAL LUIZ REID

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE

MACAÉ – FAFIMA

CURSO DE GRADUAÇÃO LETRAS

JOSÉ CARLOS COUTINHO JÚNIOR

ANÁLISE DA OBRA LITERÁRIA “CONDÃO”, DE GIORDANO MOCHEL NETTO SOB OS VIESES POLÍTICOS, TECNOLÓGICOS E ÉTICOS

 

Monografia apresentada à FAFIMA como requisito parcial para a obtenção do grau de etras.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Luiz Guaracy Gasparelli Junior

 

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus em primeiro lugar,aos meus pais, Vilma e José Carlos pelo apoio ao longo da trajetória do curso, à minha esposa Suélen pela colaboração diária. Aos meus Professores que ao longo do curso me mostraram uma nova forma de enxergar o mundo através da perspectiva literária, me proporcionando ótimas leituras e crescimento pessoal, e ao meu orientador Luiz pelos saberes adquiridos para elaboração desta pesquisa.

 

Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.

(BAUMAN, 2001)

 

1. INTRODUÇÃO

Vivenciamos atualmente um período conturbado em nossa política, seja

ela na esfera municipal, estadual ou federal. Uma das formas de olharmos para

esse momento importante é sob o ponto de vista ético, pois a ética está

diretamente ligada a um conjunto de regras que norteiam o indivíduo no que diz

respeito a sua conduta perante a sociedade.

Seguindo esta definição, podemos analisar como a falta de ética de

nossos políticos vem gerando em nosso país um governo altamente corrupto,

que priva sua população de direitos garantidos pela constituição como boa

educação, saúde e segurança. Muitas discussões são feitas sobre essa crise

ética na nossa política, que vem ao longo dos anos minando nossa sociedade,

e é um consenso entre muitos associá-la a uma crise maior, que é a de

identidade.

A política é feita por pessoas e cada pessoa tem sua própria vivência

social e seus próprios valores que, mesmo sendo adquiridos dentro de uma

determinada comunidade através de experiências vivenciadas e passadas

através das gerações, sofrem com a influência da subjetividade de cada

indivíduo dentro de cada grupo social.

Nos dias de hoje, graças à globalização, o avanço da tecnologia e a

influência da mídia nos padrões de comportamento da sociedade, pode-se

perceber certa homogeneização nos padrões sociais numa escala nacional e

até global. Influenciados por estes fatores, os marcadores sócio-culturais que

caracterizavam grupos ou comunidades vem se tornando mais estreitos.

É importante destacarmos que o Estado é um governo centralizado

sobre uma nação dentro de um determinado território que surgiu para atender

demandas especificas de grupos sociais, já a nação em sua totalidade é

formada por representações e símbolos que caracterizam um discurso, um

sentimento de cultura nacional proposto para unificar através de instituições

culturais diversos grupos sociais como um só povo.

A política se faz por um sistema de representação, onde os indivíduos

são colocados através de voto popular para representar demandas, que sob

uma perspectiva nacionalista deveria beneficiar a todos, porém na prática os

políticos trabalham no sentido de atender grupos sociais específicos,

 

geralmente por interesses financeiros e ideológicos, gerando um desequilíbrio

social.

Dentro desta ótica apresentamos o livro Condão, uma obra literária

nacional do autor Giordano Mochel Netto, que conta a história de um homem

que vive em um Brasil futurístico. O livro apresenta um país que foi

redesenhado através da tecnologia, fruto da ideologia de um homem que

conseguiu através de um software, extinguir a corrupção nas instituições

políticas do Brasil e do mundo.

O autor nos revela de uma forma amplificada muitas das características

sociais, ideológicas, políticas e pessoais que experimentamos nos dias de hoje.

Além disso, ele explora o grande avanço da tecnologia e da robótica,

mostrando como eles se tornaram fundamentais para o desenvolvimento da

espécie humana. Seu poder de transformação nas estruturas físicas, sociais e

a sua “neutralidade”, teoricamente são fundamentais para a obtenção de uma

sociedade equilibrada.

Este romance nos permitirá fazer uma abordagem importante do ponto

de vista literário sobre a situação política atual do nosso país comparando-o

com as características apresentadas no Brasil fictício do Condão. O objetivo é

explicitar estas características marcantes descritas no livro de como o

pensamento autoritário dos nossos governantes pode criar uma sociedade

distópica e o quanto isso não esta tão distante da nossa realidade.

 

2 SITUAÇÃO POLÍTICA ATUAL

2.1 Conceito de nação

Antes de fazer uma abordagem sobre as questões políticas presentes na

obra literária, que também são encontradas quando analisamos o momento

atual vivido em nossa própria política, é importante levantarmos outras

questões relacionadas a este cenário, como a construção de uma cultura

nacional, assim como o contexto histórico que envolve todo esse quadro atual,

pois ambos são de suma importância para a compreensão do que temos vivido

nos dias presentes em nossa política.

O conceito de identidade nacional como imaginamos nos tempos

modernos é resultado de um apanhado de tradições, símbolos e sentimentos

que nos fazem sentir “unificados” como povo dentro de uma determinada

pátria, mesmo que esse tenha traços culturais distintos em suas regiões, como

é no caso do Brasil, onde existem diferentes sotaques, hábitos alimentares e

formas de se vestir. Hall (2003) exemplifica desta forma:

Há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias

e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas

fornecem uma série de estórias, imagens, símbolos e rituais

nacionais que simbolizam ou representam as experiências

partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à

nação. Como membros de tal “comunidade imaginada” nos vemos,

no olho da nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. Ela

dá significado e importância à nossa monótona existência,

conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que

preexiste a nós e continua existindo após nossa morte. (p.52)

Estes fatores nos fazem questionar se uma nação de dimensões tão

extensas quanto as nossas consegue manter uma significação centralizada,

com tantas identidades locais distintas? Sabendo que historicamente o Brasil é

marcado por consideráveis desigualdades sociais, econômicas e políticas entre

classes, etnias e religiões, como poderia haver um consenso?

Para alguns teóricos, mesmo esse sentimento de “pertencimento” ser

algo “criado” e desenvolvido através de narrativas literárias e históricas, existe

uma importância ideológica na construção de um sentimento de nacionalidade

 

para o homem na sua subjetividade, como afirma Gellner (1983 apud Hall,

2003):

A idéia de um homem (sic) sem uma nação parece impor uma

(grande) tensão à imaginação moderna. Um homem deve ter uma

nacionalidade, assim como deve ter um nariz e duas orelhas. Tudo

isso parece óbvio, embora, sinto, não seja verdade. Mas que isso

viesse a parecer tão obviamente verdadeiro é, de fato, um aspecto,

talvez o mais central, do problema do nacionalismo. Ter uma nação

não é um atributo inerente da humanidade, mas parece, agora, como

tal. (p.48)

O fortalecimento deste sentimento de pátria, de ser parte de um único

povo dá-se por meio de instituições como o sistema educacional, por exemplo,

que contribui para a formação de uma “cultura nacional”. A padronização de um

sistema linguístico como parâmetro para todo o território nacional é uma das

formas de se fazer essa “unificação”. Outros dispositivos utilizados são os

símbolos como a bandeira nacional, que constrói um sentido e influencia a

concepção que temos de nós como indivíduo e como povo.

Historicamente, a maioria das nações foi construída por diversas

culturas que foram unificadas através de conquistas violentas entre os povos. A

cultura dos povos vencedores dessas batalhadas era “forçadamente imposta”

aos povos derrotados. A cultura “dominante” passava a ser inconscientemente

imaginada como “superior” e ao longo dos anos ia ganhando o status de

“essência” cultural daquela nova comunidade formada pela miscigenação de

seus indivíduos. Podemos ver no exemplo da história brasileira com a

escravização dos povos africanos pelos europeus, que este “sentimento

cultural” tem atravessado as gerações, criando paradigmas que vão

permanecendo na sociedade resultante deste fenômeno. Os reflexos deste

processo no Brasil ainda são vistos não só na distinção econômica entre

comunidades de descendência européia e africana, como também na forma

como suas as culturas são retratadas em nosso país.

É possível ver regiões que foram predominantemente colonizadas por

imigrantes europeus tendo suas economias entre as mais ricas do país, suas

tradições, costumes, e hábitos sendo exaltados, valorizados e até incentivados

pela mídia. Já outras regiões historicamente têm grande parte de sua

 

população formada por descendentes africanos ou indígenas, tendo altos

índices de pobreza, fome, desemprego. Além disso, temos o fato de suas

tradições culturais, hábitos e costumes serem muitas vezes “marginalizados”.

Hall (2003) discute a respeito desse processo de homogeneização cultural:

Não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos

de classe, gênero ou raça, uma cultural nacional busca unificá-los

numa identidade cultural, para representá-los todos como

pertencendo à mesma e grande família nacional. Mas seria a

identidade nacional uma identidade unificadora desse tipo, uma

identidade que anula e subordina a diferença cultural? (p. 59)

Sobre este aspecto, podemos perceber hoje que no Brasil é difícil

conceber com exatidão qual seria a “genuína” identidade cultural brasileira

cabível para qualquer cidadão em todo território nacional. Levando em conta

todas as diversas influências culturais que tivemos, somando-se ao fato de

possuirmos em todas as regiões traços culturais marcantes e distintos uma das

outras e considerando a questão da influência da evolução tecnológica neste

processo, uma homogeneização cultural em escala nacional certamente não se

deve a um processo natural.

Seguindo este preceito de que a identidade nacional é uma “comunidade

imaginada”, podemos argumentar sobre para onde esta construção tem levado

a nossa sociedade, seguindo a cultura da valorização do macro, das grandes

conquistas, grandes descobertas, grandes projetos e planos para a

humanidade.

Isto sugere uma interferência no processo de identidade nacional por

hábitos que vão se desenvolvendo com o passar de determinado tempo, tendo

em vista a “modernidade” como objeto transformador desses padrões culturais.

 

2.2 Influências da Globalização, Tecnologia e Política na identidade

cultural no século XXI

Podemos, hoje, falar não só das influências culturais de uma região

sobre outra numa escala nacional, mas mundial. A globalização é uma forte

influência nos padrões culturais, pois fortalece a unificação cultural da

sociedade através de espaços econômicos generalizados. Ela possibilita a

troca de informações e o aumento do comércio de bens de consumo agro-

industriais. Podemos citar, por exemplo, como as mudanças ocorridas nos

hábitos alimentares nas ultimas décadas nos países ocidentais influenciam

diretamente numa mudança sócio-cultural de uma nação:

Os processos de industrialização e de urbanização, verificados nos

países do Sul, em geral num ritmo mais acelerado comparado à

evolução observada nos países do Norte, ocasionaram modificações

importantes na produção e no consumo alimentar.

Vemos, sobretudo nas grandes cidades da América Latina e da

África, um aumento no consumo dos alimentos transformados, da

alimentação fora de casa, a evolução dos locais de compra e, ao

mesmo tempo, a intensificação da desigualdade social e das formas

de exclusão, com influência direta nos níveis de consumo alimentar

da população. (Oliveira e Thébaud-Mony, 1996, p.3-4)

De fato vemos como este processo de integração sócio-econômico ao

longo dos anos tem afetado a cultura e os hábitos que antes eram peculiares

em diversos países, como a forma de se alimentar, vestir, comunicar, etc.

Outra característica marcante desse processo é a criação de desejos

através da possibilidade de aquisição de uma infinidade bens e serviços

oferecidos pelo mercado, não significando a democratização do consumo,

mesmo que muitos vejam nesta diversidade de produtos oferecidos uma

suposta liberdade de escolha.

Na verdade, o mercado cria através desta diversificação de ofertas, uma

padronização no estilo de vida dos indivíduos dentro das sociedades

contemporâneas, nas quais o padrão seja o próprio consumo por si só:

Desenvolvendo novos produtos, com a ajuda da publicidade e das

estratégias da distribuição, a indústria contribui fortemente para a

mudança dos hábitos alimentares. Assim, a dinâmica entre a oferta e

a demanda é também uma característica do modelo de consumo

 

agro-industrial, na medida em que uma determina a outra. (Oliveira e

Thébaud-Mony, 1996, p.3)

Podemos afirmar que existem varias estratégias do mercado para

estimular os indivíduos ao consumo de bens, como criar demandas através de

uma oferta diversificada, com a ajuda da propaganda que muitas vezes faz a

associação da aquisição do produto a certa “personalização”. O mercado

também se utiliza de propagandas sócio-afetivas, hedonistas e as que dão

sensação de poder sobre o tempo e espaço territorial ao consumidor.

Entender como funciona o mercado consumidor na sociedade

contemporânea nos ajuda a identificar o que se pode chamar segundo

Severiano (2006) de “pseudo-individuação”, na medida em que o mercado não

visa à diferenciação entre individuo e sociedade, mas sim a mimese, a

homogeneização das consciências.

Neste processo de homogeneização dos pensamentos individuais,

também podemos apontar os grandes avanços tecnológicos e suas influências

no modo em como os seres humanos interagem socialmente na pós-

modernidade.

Observando e tomando como exemplo as redes sociais, podemos ver

que esta ferramenta exige “adequação”, pois cria a cada dia novos hábitos

através da comunicação virtual. Teoricamente, as redes sociais estreitam

culturas, facilitam o acesso à informação e às relações entre os membros de

diferentes espaços físicos e culturais. Porém este novo modelo de convívio

social se mostra contraditório durante este processo teoricamente “evolutivo”.

Esta “adequação”, hoje em dia quase sempre influenciada pela evolução

tecnológica, assimila-se ao processo de criação de uma identidade cultural,

cuja construção social é pré estabelecida e muda os paradigmas da sociedade,

criando novos horizontes.

A humanidade caminha, através de uma ideologia difundida pela mídia

na sociedade, para a criação de um paradigma mundial. Ela nos faz acreditar

em um mundo cada dia mais unificado, com distâncias cada vez menores e

limites sendo transpassados mais rapidamente, rumo a um mundo melhor:

A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da

atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem

 

em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema.

Damos aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em aldeia global

para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente

informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das

distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se

difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo

se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado

avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar

o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são

aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores

hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais

distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal.

Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado. (Santos, 2000, p.9)

O discurso de universalidade propagado pela globalização utiliza-se de

todo o aparato tecnológico que atualmente faz parte do cotidiano da

humanidade. O que se está tentando criar é uma sensação coletiva de avanço

social, quando na realidade o que vivemos é um “globalitarismo sistêmico”, que

subverte o pensamento coletivo e pessoal e que tem como bases o capital e a

informação. “Ambas, juntas, fornecem as bases do sistema ideológico que

legitima as ações mais características da época e, ao mesmo tempo, buscam

conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais,

influenciando o caráter das pessoas” (Santos, 2000, p.19).

O capital se tornou mais do que nunca um objeto pelo qual os indivíduos

alimentam suas vidas através do consumismo. A ideia de buscar poder

aquisitivo para obtenção de realização pessoal vive seu ápice de afloramento

na subjetividade humana, fazendo com que cada vez mais a satisfação venha

através do consumo desenfreado de bens materiais.

A informação é o principal instrumento utilizado neste processo de

doutrinação da mente humana, pois “(…) estamos diante de um novo

“encantamento do mundo”, no qual o discurso e a retórica são o princípio e o

fim. Esse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos, já que a

informação atual tem dois rostos, um pelo qual ela busca instruir, e um outro,

pelo qual ela busca convencer” (Santos, 2000,p.20).

Sobre tudo isso ainda se ressalta o papel da política e sua influência

no cotidiano da sociedade em todas as esferas, ou como imaginamos que

deveria ser quando pensamos no seu uso, no pensamento de comunidade,

sobretudo quando falamos em estado democrático como é o caso do Brasil.

 

A articulação do sistema político atual com a ideologia global a

serviço do capitalismo reforça as características que divergem da forma que

imaginamos a governabilidade do Estado sobre seu povo. Teoricamente,

deveria existir uma responsabilidade individual e coletiva em se criar através

da união, do trabalho e da educação uma civilização progressista que

respeita e torna acessível a todos a cidadania plena.

O papel de mantenedor do bem comum aos cidadãos, na prática,

vem deixando de ser um dos objetivos principais do Estado, quando este

legitima práticas que vem criando uma sociedade de indivíduos egoístas,

como a competitividade como regra absoluta, sem dar as mesmas

condições e oportunidades para todos.

Cria-se, assim, um sentimento coletivo de desproteção social, que

gera insegurança, alimentada pela mídia diariamente, pois quando se

analisa os fatos vemos que mesmo com todo o progresso da humanidade,

mazelas da nossa existência como a fome, as guerras, as doenças, a

pobreza e a falta de elementos básicos para uma vida digna continuam

comuns em nosso cotidiano.

3. PERSPECTIVAS DO LIVRO CONDÃO SOB OS CAMPOS

POLÍTICOS, TECNOLÓGICOS E ÉTICOS

É necessário abordarmos alguns conceitos bem presentes no livro,

como utopia, distopia e ética. Essas definições nos darão um entendimento

mais claro em relação às perspectivas que serão seguidas no transcorrer deste

trabalho.

Em relação ao mundo apresentado na utopia como gênero literário

podemos afirmar, segundo Lyman Sargent, que ele se apresenta como “uma

sociedade não existente descrita em detalhes consideráveis e normalmente

localizada no tempo e no espaço” (apud MARQUES, 2009, p. 2). Ele também

faz uma distinção entre utopia e utopismo (utopianism), que é caracterizado

como um “sonho social” (Social Dreaming).

 

Nas narrativas utópicas podemos ver um mundo descrito como ideal,

onde o autor compartilha com o leitor o imaginário que ambos têm sobre a

realidade em que vivem. “A utopia é, portanto, uma ficção que se elabora a

partir do diálogo entre o real e o ideal, entre o existente e o imaginado, ou, em

última palavra, entre o real e o mito” (MARQUES, 2009, p. 2).

Nas sociedades descritas sob a perspectiva da utopia, o mundo se

apresenta como um lugar perfeito, existindo simetria desde os espaços físicos

até no modo como os indivíduos pensam e interagem. A coletividade sobrepõe

qualquer divergência individual, isso gera um distanciamento afetivo, pois o

individualismo pode perturbar a ordem da racionalidade utópica. Outra

característica é a ausência do mal, este foi erradicado da sociedade. Também

temos um conceito de felicidade, que não é medido por realizações pessoais,

mas sociais.

A Narrativa Utópica constitui uma “ficção científica” sociológica, onde

aquilo que existe como conceito abstrato e doutrina teórica, no tempo

e no espaço de autor e leitor, realiza-se então ficcionalmente.

Desprovida de uma ontologia física, essa sociedade precisa ser

explicada nos limites epistemológicos em que se inscrevem autor e

leitor. Discursos de Ciência Social e Filosofia preenchem suas

páginas, como os de Física ou Genética percorrem as da moderna

ficção científica. (MARQUES, 2009, p. 10)

A partir deste conceito de utopia no gênero literário, podemos expor

também a definição de distopia. Ela se caracteriza como uma oposição a tudo

que representa a utopia, tanto na harmonia e no equilíbrio do convívio social,

quanto nas relações de poder entre o governo e o povo. Uma sociedade

distópica na literatura é sempre apresentada como um mundo pior que o

mundo real, onde o totalitarismo, a opressão e a manipulação de informações

são usados como forma de controle na social.

A sociedade se torna um lugar caótico, não sendo possível encontrar

felicidade, pois existe uma enorme tensão entre o governo e o povo, o que

sempre provoca rebelião por parte deste, como uma forma de buscar

libertação.

Outros conceitos importantes são os de ética e moral. A etimologia dos

termos é semelhante: moral vem do latim mos, moris, que significa “maneira de

se comportar regulada pelo uso”, daí “costume”, e de moralis, morale, adjetivo

 

usado para indicar o que é “relativo aos costumes”. Já ética vem do grego

ethos, que tem o mesmo significado de “costume”.

A ética diz respeito ao comportamento humano quanto aos seus valores,

caráter ou modo de agir perante a sociedade. Esse comportamento não é

inato, mas sim adquirido no convívio social através do hábito. A ética faz uma

reflexão sobre os princípios fundamentais para a vida em sociedade, da qual

podemos nos utilizar para que se possa analisar o comportamento de alguns

personagens durante o romance.

Diante de todos os aspectos abordados até aqui, apresentamos o

livro “Condão”, uma obra de ficção especulativa de Giordano Mochel Netto,

que se passa em um Brasil futurístico ultratecnológico. A corrupção na política

foi extinta graças a um software, chamado “condão” e criado por um jovem

programador chamado André Jeremias.

O livro conta a história de Edwardo, um programador virtual que tem

uma vida tranquila na cidade do Rio de Janeiro, sua namorada Sílvia, uma

biogeneticista que trabalha no Instituto Nacional de Biogenética e seu

melhor amigo Jânio, professor de História Moderna.

A vida de Edwardo segue a mesma rotina até o dia em que ele

presencia a morte de dois jovens por drones responsáveis pela segurança

pública. A perplexidade do caso deixa Edwardo intrigado, já que o protocolo

do condão, que a princípio nasceu como um interpretador legal eletrônico

de códigos jurídicos, e também era usado como código de conduta pela

inteligência artificial dos drones, até aquele momento não havia cometido

nenhuma falha.

Na verdade, graças à lei pública de interpretação eletrônica, o

programa se valia dos princípios fundamentais do direito e foi usado

juntamente com as provas conseguidas por repórteres investigativos, para

desmantelar os cartéis políticos que controlavam o país. O software foi tão

eficaz em sua “faxina moral” na política brasileira, prendendo todos os

políticos e juízes corruptos, que o dinheiro público parou de ser desviado e

começou, de fato, a ser investido em todas as áreas da sociedade.

Recebendo altos investimentos em educação, infraestrutura e

robótica, o Brasil passou a ser uma potência econômica e tecnológica,

 

eliminando a fome, a pobreza, as doenças e exportando tecnologia para o

mundo, se tornando um país de ponta no cenário econômico e político.

É dentro desse cenário que Edwardo começa a investigar a situação

presenciada. E junto com Jânio e Sílvia, são os únicos que sabem do

ocorrido, já que a mídia é totalmente controlada e informa que os dois

jovens morreram de overdose.

Os jovens assassinados estavam consumindo uma substância

chamada “tecanol”, o que não era exatamente crime, mas sim uma pequena

contravenção passível de multa, por isso a perplexidade na conduta dos

robôs aéreos que deveriam apenas encaminhá-los à delegacia, em vez de

assassinar os rapazes.

À medida que o trio vai prosseguindo com a investigação, eles

descobrem o quanto a sociedade em que eles vivem se tornou um ambiente

onde impera a alienação coletiva, através da manipulação da informação

pela mídia, controlada por um governo totalitário que reescreveu a história

do país alterando a identidade cultural de todo um povo com a ajuda da

tecnologia.

Colocando o “bem comum” acima de qualquer sentimento de

individualidade, Jeremias pretendia criar uma sociedade cuja humanidade e

máquinas interagissem de forma igualitária em relação um ao outro, através

da criação de uma “entidade” formada por uma parte biológica (milhares de

cérebros humanos com QIs compatíveis) e outra parte máquina (cérebros

cibernéticos com inteligência drônica artificial).

O resultado desta experiência seria a criação de um ser totalmente

racional que governaria e guiaria a humanidade ao modelo ideal de

sociedade, num convívio mútuo em forma de irmandade. As pessoas cujos

cérebros integrassem este projeto teriam suas identidades individuais

perdidas, fazendo parte de um só organismo pensante, formado por muitas

mentes interligadas paralelamente.

Sob a perspectiva política, podemos citar alguns pontos pertinentes

que ocorrerem com a sociedade brasileira descrita no romance condão. No

Brasil descrito no livro, Jeremias pode ser visto como uma figura

 

messiânica, que consegue livrar o país da corrupção através dos meios

jurídicos, passando a partir daquele momento a ser considerado o

“salvador” de toda a nação.

A civilização idealizada por Jeremias a partir daquele momento vive

um paradoxo entre a utopia e a distopia, Utopia como lugar perfeito, onde a

promessa messiânica de paz, harmonia e felicidade se fazem presentes, já que

a sociedade vivia como dito no romance, na “Era de ouro”. Havia-se extinguido

a fome, as guerras, melhorado a infraestrutura das cidades, feito investimentos

maciços em educação, saúde e segurança, o que gerou uma sociedade com

um povo com qualidade de vida tão alta que praticamente viviam sem grandes

preocupações.

Essa figura de “salvador” também acontece em nossa política, sendo

usada e explorada muito bem por alguns políticos da nossa nação. De tempos

em tempos, principalmente depois de algum período de crise vivido pela

população, seja pela corrupção na administração do dinheiro público ou por

escândalos políticos, essa figura ganha força e algumas vezes consegue

chegar ao poder.

O papel messiânico de Jeremias, sua forte aceitação, credibilidade e

admiração perante a todo o povo tornaram sua metodologia de governo quase

inquestionável, dando a ele total autonomia para repensar o caminho que a

sociedade trilharia segundo o seu próprio conceito de ética, em que a

coletividade sobrepõe-se sempre à individualidade.

Devido ao grande nível de corrupção em que se encontrava a sociedade

brasileira, Jeremias trabalhava na causa de que a máquina substituísse o

homem na esfera jurídica, criando um interpretador de códigos jurídicos

(condão). Sua ideia foi a de que não haveria mais a interferência dos cartéis

políticos nos julgamentos, através da implantação de uma justiça digital.

Tomando duas frases utilizadas pelo autor como premissas pelo que

viria pela frente, que “a unanimidade abre todas as portas para o totalitarismo”

(MOCHEL, 2015, p.110) e que “a maior parte dos erros dos homens provém

mais do fato de eles raciocinarem a partir de falsos princípios do que

raciocinarem mal de acordo com seus próprios princípios” (Ibid. p.7), pode-se

 

descrever como foi o comportamento de Jeremias perante a sociedade do

condão, para a criação de “um mundo melhor”.

Os grandes avanços tecnológicos descritos no romance redefiniram o

papel do homem na sociedade futurística do condão. Com o passar dos anos,

as máquinas substituíram os humanos nos trabalhos que antes geralmente

eram feitos de formal braçal. Com a sociedade inteira possuindo um alto nível

de escolaridade, os homens passaram a se dedicar mais à ciência, robótica

fazendo novas descobertas de técnicas e criando novas tecnologias, além de

continuar se dedicando aos esportes e às artes.

Apesar disso, todos esses fatores esbarravam no fato de a mídia

(informação) ser “controlada” pelo Estado, já que os livros de papel foram

substituídos pela informação virtual, tanto no âmbito acadêmico como na

informação jornalística. Esta, por sua vez, também manipulava informações e

mascarava acontecimentos como a causa da morte daqueles dois jovens, por

exemplo. “Dois jovens irmãos, de 17 e 18 anos, morreram de overdose nesta

madrugada ao lado do píer da Praça Mauá, ao consumir a droga ColdCo”

(MOCHEL, 2015, p. 22).

A mídia foi usada como elemento de alienação da sociedade através da

informação pré-concebida com intuito de formar conceitos estabelecidos e

pensados na formação de uma sociedade homogênea e massificada, o que

facilitou a governabilidade, tendo em vista que, assim, não haveria mais

questionamentos da sociedade contra o governo.

Com o tempo, graças aos avanços das formas de trabalho, tendo em

vista que o homem exercia cada vez mais funções informatizadas, a jornada de

trabalho foi reduzida e os cidadãos passaram a viver mais focados em seus

próprios interesses, como lazer e outras atividades. Nesse modelo sócio-

cultural, não havia o que questionar, pois teoricamente não existiam grandes

preocupações cotidianas.

O conceito de utopia presente no romance fica bem relativizado se

levarmos em conta a identidade cultural daquela sociedade previamente

“fabricada”, já que os cidadãos tiveram sua realidade distorcida e mascarada

pela informação pré-formulada, manipulada.

 

Como a correspondência entre o que pensamos e a realidade

objetiva continua como critério válido para a atribuição de verdade, a

forma como concebemos o próprio conceito de realidade, certamente,

influencia a nossa condição subjetiva de interpretação dos fatos

“reais”. Assim, a pressuposição de que a realidade seja algo estático,

“realmente existente”, pode conduzir a uma interpretação positivista

dos fatos, absolutizando a aparência do real como o “real em si” e

atribuindo à essa interpretação o caráter de dogma na forma de

“verdade”, o que, em última instância, interessa à classe dominante

na sociedade. (ANDRIOLI, 2006)

De fato, o conceito de utopia como lugar perfeito existia na mente das

pessoas que acreditavam não haver nenhum problema na sociedade descrita

no romance. Não havia, por parte da população, o conhecimento dos fatos que

acarretaram naquele modelo social, como a drástica redução populacional para

a adequação genética. Esse processo de extermínio, por exemplo, resultou em

uma nova perspectiva social, por meio de uma da distribuição de

anticoncepcionais disfarçados de suplementos vitamínicos.

Voltando ao plano, recebemos da Condão CO um lote de

suplementos alimentares, teríamos que dar às mulheres e às

meninas. Eu sabia que não havia ali apenas suplemento alimentar.

De qualquer forma, nem todas as mulheres receberam o remédio,

algumas foram escolhidas para não receberem. Ao se identificarem

eram dispensadas. Demorou quatro anos para as queixas médicas

em relação à gravidez tornarem-se freqüentes. Nesse momento,

percebi o plano de Jeremias. (MOCHEL, 2015, p. 112)

Existem semelhanças no que diz respeito à vigilância da sociedade do

“Condão”, de Mochel, com outro romance distópico, “1984”, de Orwell, com

ênfase no alto controle social como meio de governo nas duas literaturas.

Destacamos também a questão da eugenia de “Admirável Mundo Novo”, de

Huxley, por tratar de formas de controle de natalidade no âmbito social. da

mesma maneira que a sociedade proposta por Mochel é estruturada, apesar de

que neste, ela se fez através do controle populacional para a busca de um

equilíbrio social, não havendo depois disto diferenciação entre classes sociais.

Podemos destacar, ainda, como elementos distópicos, ou seja,

contrários ao ideial de perfeição utópica, presentes na obra de Mochel, a

“mecanização” da humanidade no sentido em que a racionalidade humana

sobrepõe-se à subjetividade, à individualidade. Esta foi suprimida no que diz

 

respeito ao modo em como os cidadãos passaram a enxergar as relações

de poder como, por exemplo, um programa de computador sendo a base

para a estruturação de toda uma civilização.

Entendemos que questão chave o romance “Condão” seja a ética,

pois nos é apresentada uma nova perspectiva social, na qual a sociedade

consegue se libertar de mazelas que ainda enfrentamos no século XXI,

como a fome, a corrupção na política e as guerras. Porém somos

confrontados pela forma em como tudo isso se tornou realidade, assim

como os meios que foram usados para sua obtenção, como a redução

populacional secretamente programada e executada pelo governo, assim

como a manipulação de informações que circulam na mídia para que a

população não saiba do ocorrido.

Foram 4 anos esbravejando no Congresso, com a mídia abafando. As

revoltas nas redes sociais explodiram. Existiam comunidades que

garantiam que havia algo nos suplementos. Acusações, estudos,

dados do exterior. As informações trafegavam entre grupos

científicos. Só se esqueceram de uma coisa: estavam no território do

líder. Jeremias dominava a tecnologia e a mídia. As informações das

redes sociais foram evaporadas na mesma velocidade com que

surgiram. (MOCHEL, 2015, p.113)

Antes de a civilização do condão chegar ao nível de excelência

proposto no romance, houve uma grande “praga”, planejada por Jeremias

para a contenção do crescimento populacional. Tal evento matou sessenta e

sete milhões de pessoas no Brasil. Isso aconteceu depois que a

manipulação genética nos suplementos, distribuídos pelo governo, teve seu

caráter ético questionado pelo líder da força de segurança nacional, que

fazia parte do projeto.

Talvez sem intenção, Jeremias, através desta medida, utilizou uma

tática parecida com a utilizada pelo governo da sociedade de 1984, de

Orwell, o medo. Essa foi uma ferramenta eficaz para obtenção de uma

sociedade governada de forma absolutista, pois

(…) abrir mão da liberdade seria a contraprestação para se atingir o

estado de harmonia e garantir a própria sobrevivência, o que

consequentemente afetaria também o pleno desenvolvimento da

individualidade. A questão é que o objetivo final desta restrição que

 

os homens introduziram para si mesmos é o desejo de não retornar à

condição de guerra de todos contra todos (AZUMA, 2006)

As máquinas foram postas como “responsáveis” pela segurança

pública. Elas garantiriam, acima de tudo, o “bem comum”, a justiça e o

equilíbrio das diversas esferas sociais. Este conceito é bastante

questionável no livro, já que o protocolo do condão não considerou como

crime a morte de sessenta e sete milhões de pessoas, pois o programa

entendia “(…) que o bem coletivo sobrepõe-se ao bem individual”(MOCHEL,

2015, p. 113) e esta medida visava manter a sociedade em uma taxa

populacional sustentável.

Concluímos, assim, que a civilização proposta no romance de Mochel

nos permite uma reflexão sobre a mecanização da vida humana, fruto da

evolução tecnológica do nosso tempo, associada ao controle da mídia. A

homogeneização do pensamento coletivo, influenciada pelos meios de

comunicação, além da utilização do medo social como ferramenta de

influência, incitam a nossa sociedade rumo a governos cada dia menos

democráticos.

As questões referentes à perda da subjetividade humana se fazem,

mais do que nunca, relevantes, à medida que a sociedade se mostra cada

dia mais padronizada em todas as áreas.

 

Referências:

ANDRIOLI, Antônio Inácio. UTOPIA E REALIDADE. Unijui-RS. Revista espaço

acadêmico – Nº 56 Janeiro/2006

ANGOULVENT, Anne-Laure. Hobbes e a Moral Política. Tradução de Alice

Maria Cantuso. Campinas, SP: Papirus, 1996.

AZUMA, Eduardo Akira. Uma Análise da Obra “1984” de George Orwell a

partir de Elementos da Teoria Hobbesiana – A instrumentalização do

medo em favor de um Governo Absolutista. Marília-SP Revista espaço

acadêmico – N° 61 Junho/2006

BAUMAN. Zygmunt Globalização – As consequências humanas. Trad. de

Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

ESTUDO E PESQUISAS EM PSICOLOGIA vol 6. n2. Rio de Janeiro: UERJ.

Instituto de psicologia, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós modernidade trad. de Tomaz

Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro – 8.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

MARQUES, Paulo Sérgio. A poética do perfeito: elementos da narrativa

utópica. São Paulo, 2009. Tese (Doutorado) em Estudos Literários

FCLAR/Unesp – Fomento: Capes

NETTO, Mochel Giordano. Condão. Barueri,SP: Novo Século Editora, 2015.

(talentos da literatura brasileira).

OLIVEIRA, Silvana Pedroso e THÉBAUD-MONY, Annie. Modelo de consumo

agro-industrial: Homogeneização ou diversificação dos hábitos alimentares?

São Paulo: Unicamp, Artigo publicado da Revista Cadernos de Debate no Vol.

IV / 1996.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização:do pensamento único à

consciência universal. 10. ed . Rio de Janeiro: Record, 2003. 174 p/ 1996.

 

SEVERIANO, Maria de Fátima Vieira. Pseudo-individuação e

homogeneização na cultura do consumo:reflexões críticas sobre as

subjetividades contemporâneas na publicidade.ESTUDOS E PESQUISAS

EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 6, N. 2, 2º SEMESTRE DE 2006.